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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Western Union: Small Boats by Isaac Julien



Museu do Chiado(Temporary Exhibitions)
30.10.2008-1.2.2009

Western Union closes Julien's trilogy of audiovisual film installations that began with True North (2004) and continued with Fantôme Afrique (2005).
All three works deal with post-colonial condition, newly established global relations and their consequences, tackle philosophical questions, as well as racial and gender issues, and add to all this the frenzy of contemporary dance.
The trilogy delves deep into the cinema culture and suspense, fusing fiction and documentary genres into a dense entity and refusing linear story-telling common to most examples of film production, in order to give space to fragmented, parallel, multi-voiced, non-linear narration.
The simultaneous projections on multiple screens make it impossible to grasp everything at the same time. There is no singular, all-encompassing viewpoint in a Foucauldian sense and therefore no totalizing effect – instead, a single story made up of individual corresponding pieces and consisting of many intertwined stories is created, different every time we watch it. In this case the visitor is not merely a passive receptor, but rather an active editor of the material proposed by the artist.
The videos of Isaac Julien – and the same can be observed in the current production by other artists – are not time-based anymore, but rather local-specific (in this case genus loci is the Mediterranean sea), which is contrary to 'neutral' video works from past decades. Being decidedly spatial in their scope and display, space re-emerges here as a paradigm.
Western Union, named after a company that provides rapid (almost real-time) money transactions between Western Europe and the rest of the world, a system used on a daily basis by immigrants from Africa, Brazil or Eastern Europe, who send money to their families and pay a more or less high tax for this service, depending on the amount and country selected, is a work exploring the notion of journeying from the opposite direction, where the tax to be paid is much higher.
More precisely, it is the story of workers from Sub-Saharan Africa who cross the Mediterranean in small fishing boats heading towards Sicily to escape the wars or famine, looking for a better life. Some (if not most) of these economic immigrants never reach their destination nor return to their native lands.
The work was conceived in collaboration with the contemporary dance choreographer Russell Malliphant and relies on the appearance of an enigmatic woman, who marks her presence throughout the entire trilogy in the manner of ghosts. It seems she is invisible to everyone except to the visitor. A specter of a kind.
There are also some remarking sequences, such as men crawling under the water surface, supported by a powerful soundtrack made of undistinguishable electronic beats in crescendo, which refers to drowning men and their desperate attempt to survive.
The video suddenly cuts into another scene and the pace slows down, we see/hear water dripping and an intruder – a woman who becomes a witness.
The devastation is contrasted by the grandeur of Palazzo Gangi (the famed location from Visconti's masterpiece The Leopard), which is full of rumors and this is where the black magic woman finds herself in, unfocused and invisible in front of the confident and greedy blond beast (a lady) and in the midst of and ambient highlighting the presumed European supremacy of the past centuries.
She walks between the luxury gathered on colonial and religious quests; chandeliers, clocks on which time has frozen, and absurd amounts of gold, while men (somehow out of place in this setting) roll down the staircase or struggle on ceramic tiles that bear a visual testimony of European history, a history of violence. A colonial history and the representations of the Other, half-human, half-beast.
The fishing boats are left to rot in a junkyard in the Sicilian village Agrigento.
For a long time we are left watching the ruby red cloth floating in the water, at the same time beautiful and scary, that turns out to be an immigrant's T-shirt.
A few meters away from the white sandy beaches, where locals and tourists lie undisturbed, are corpses of men covered with shiny silver aluminum foil.
Do we exist only as a mirage of ourselves as is suggested in another sequence?
Or is it that we continuously see and project that which doesn't exist?
These uncanny moments perpetuate thru the entire work and leave the visitor with an ambiguous feeling, despite of the beauty of the imagery, yet unseen.

Western Union: Small Boats de Isaac Julien



Museu do Chiado, no âmbito do Festival Temps d’images

Western Union encerra a trilogia de instalações audiovisuais da autoria de Isaac Julien que teve início com True North (2004) e prosseguiu com Fantôme d’Afrique (2005). Estas obras lidam com a condição pós-colonial, com o estabelecimento de novas relações globais e com as suas consequências, levantando questões filosóficas e explorando o tema da raça e do género, sendo ainda enriquecidas por uma frenética dança contemporânea.
As obras partem de uma intensa pesquisa na área do cinema e do suspense, fundindo o género ficcional com o género documental, compondo uma entidade densa que se recusa a contar uma história de forma linear, como habitualmente sucede na produção cinematografíca, dando lugar a uma narração fragmentada, paralela, polifónica e não-linear.
As projecções simultâneas em diversas telas tornam impossível captar tudo ao mesmo tempo. Não é possível encontrar aqui um ponto de vista único e panóptico, no sentido foucaultiano. Não estamos aqui perante uma composição totalizante, mas sim diante de várias peças relativas a uma história (feita de diversas histórias entretecidas) que é diferente de cada vez que é vista. Deste modo, o visitante não constitui um mero receptor passivo, mas sim um editor activo do material fornecido pelo artista.
Os vídeos de Isaac Julien não obedecem a uma lógica temporal, o que também se verifica no trabalho de outros artistas contemporâneos, embora possuam um referente espacial específico (neste caso, o mar Mediterrâneo), contrariamente à tendência das últimas décadas para apresentar trabalhos de vídeo “neutrais”. O espaço re-emerge assim como um paradigma nestas obras cujo objectivo e desenvolvimento é deliberadamente situado.
O título da obra remete para a instituição financeira com o mesmo nome, a Western Union, que organiza transferências de dinheiro entre a Europa Ocidental e o resto do mundo, as quais são constantemente efectuadas por imigrantes provenientes de África, do Brasil ou da Europa de Leste que assim enviam dinheiro às suas famílias, pagando por este serviço um preço maior ou menor, consoante a quantia e o país. Esta obra, contudo, debruça-se sobre a viagem que é efectuada em sentido contrário, para a qual o preço a pagar é bem mais elevado.
Assim, conta-se nesta obra a história dos trabalhadores oriundos da África subsaariana que atravessam o Mediterrâneo em pequenos barcos de pesca, em direcção à Sicília, procurando fugir à fome e à guerra, em busca de uma vida melhor. Alguns destes migrantes económicos, se não a maioria, ou não atingem sequer o seu objectivo ou então nunca regressam.
Esta obra foi concebida em parceria com o coreógrafo de dança contemporânea Russel Malliphant e conta com a participação de uma mulher enigmática que assombra toda a trilogia como um fantasma. Essa mulher parece ser invisível para todos, menos para o visitante. Como um espectro.
Assinalem-se ainda algumas sequências notáveis como aquela em que se vêem alguns homens a nadar debaixo de água, que é acompanhada por uma poderosa banda sonora, constituída por batidas electrónicas em crescendo, impossíveis de distinguir, que remetem para o afogamento daqueles homens e para a sua desesperada tentativa de sobreviver.
Esta cena é subitamente cortada, dando lugar a outra na qual o ritmo abranda e se assiste a um fio de água a pingar e ao surgimento de um intruso, uma mulher que se torna numa testemunha.
À visão da devastação é agora confrontada a grandeza do Palazzo Gangi (célebre cenário da obra prima de Visconti, O Leopardo), povoado por sussurros, onde se encontra a 'black magic woman', desfocada e invisível, diante de um monstro confiante e ávido, uma mulher loura, remetendo este ambiente para a suposta superioridade europeia dos últimos séculos. A mulher caminha por um ambiente luxuoso que evoca os tempos coloniais e uma atitude religiosa; os candelabros, os relógios nos quais o tempo parou e quantidades absurdas de ouro. Por outro lado, os homens (de algum modo deslocados neste cenário) descem pela escadaria ou debatem-se em cerâmicas que patenteiam um testemunho visual da história europeia, uma história de violência; uma história colonial, feita de representações do Outro, figurando-o como meio-humano, ou meio-animal.
Os barcos de pesca apodrecem em depósitos de sucata na cidade siciliana de Agrigento. Durante bastante tempo somos levados a observar um pano vermelho-rubi que flutua na água, simultaneamente belo e assustador, que se descobre ser a camisola do imigrante. A alguns metros de distância das praias de areia branca onde habitantes locais e turistas repousam calmamente, encontram-se os cadáveres daqueles homens, cobertos por folhas de alumínio, brilhantes como prata.Existiremos apenas como miragens de nós próprios, como numa outra sequência se sugere?Será que constantemente vemos e projectamos aquilo que não existe?
Estes momentos perturbadores prosseguem ao longo de toda a peça, entregando o visitante a um sentimento ambíguo, apesar da beleza das imagens, até então nunca vista.